25/01/2022

Soltaram fogos pela manhã

Não sei se por causa de Sampa, que completa seu 468º aniversário, do Verdão, que finalmente conquistou a Copinha, ou por causa do guru do bolsonarismo, que morreu pela última vez essa madrugada.

Falando nisso, tem gente mandando o defunto pro inferno, alguns inclusive declinando para qual círculo ele deveria ir.

Não querendo estragar o barato de ninguém, pergunto: mas não foi isso que sempre fizeram ao longo de décadas, ou seja, mandar o astrólogo, o perenialista, o jornalista polemista, o professor amador de filosofia, o filósofo de internet, o pseudofilósofo, antifilósofo, influencer, guru da extrema direita, antivacina etc., enfim, mandar esse sujeito pro inferno?

E o que ganhamos com isso?

Foi o ostracismo a que o condenaram a academia e a gente bem-pensante, toda a gente que não conversa com fascista, que acabou criando o monstro: o criador ou expositor da ideologia do pior governo da história deste país.

Um governo, aliás, que ainda não acabou, e uma ideologia que não acabará com ele.

Acha que muda alguma coisa o cara estando morto? Infelizmente não; o trabalho de ressurreição já começou.

Então, meu amigo, comemore, dê largas a seus mais baixos instintos, mas, depois, vê se para e pensa um pouquinho!

19/01/2022

Teste infalível

SE está de pleno acordo com algum filósofo acerca de princípios,

ENTÃO você não é um filósofo.

NB: A discordância acerca de princípios é uma condição necessária, mas não suficiente.

13/01/2022

Fantasmagoria transcendental

Ou a confusão paraláctica do professor Carvalho

Estava eu procurando uns vídeos de introdução a Kant e me deparei com este, do jornalista, professor e filósofo (sou como o IBGE, se alguém me disser que é branco e hétero, eu acredito) Olavo de Carvalho, que aliás acaba de morrer mais uma vez esta semana.

Vi apenas os 2 primeiros minutos, que não sou de ferro. Mas foi o bastante para constatar que o professor Carvalho não entendeu o básico do idealismo transcendental.

Não deixa de ser curioso, pois ele diz que leu Eric Weil, Zubiri, Lonergan, filósofos que estudaram Kant e tinham uma boa compreensão de seu pensamento.

Para resumir, Carvalho incorre no mesmo erro que atribui a Kant: ele esquece de si mesmo.

Quando diz que o sujeito empírico --que ele não distingue do transcendental-- não só recebe as emissões do mundo de acordo com suas estruturas a priori, mas, como parte do mundo, também projeta emissões a priori, Carvalho se esquece que só pode saber disso como... sujeito!

E que, como sujeito, saberia desse suposto a priori objetivo segundo as formas e categorias... subjetivas!

O exemplo que o professor dá é nada menos que tosco, mas vou aproveitá-lo para fazer uma reflexão que, ainda que mínima, talvez possa esclarecer esse ponto.

Assumindo que o sujeito do exemplo, que se vê no espelho, seja uma espécie de sujeito "concreto", empírico-transcendental, pergunta-se: o que distingue o sujeito vidente do sujeito visto?

Sim, obviamente, que o sujeito visto é apenas uma imagem refletida, um reflexo, do sujeito vidente.

Mas qual é a diferença fundamental entre um e outro, entre o sujeito concreto e o refletido?

A diferença, que o professor, por ter partido de uma posição ingênua, acrítica, não pode perceber é que o segundo, o sujeito-imagem, não... vê!

Não vê, nem, muito menos, enxerga nada, pois não passa de um objeto entre muitos outros.

O que quer que esse "sujeito objetal" emita ou deixe de emitir sempre será percebido por um sujeito qualquer como... objeto!

Emissões objetivas a priori não passam de fantasmagorias, ou, para falar com Kant, de ilusões transcendentais.

Primeira lição de lógica

(E de Epistemologia)

Todo macaco é mortal
Ora, Sócrates é um macaco
Logo, Sócrates é mortal

O argumento acima --que estritamente falando não é um silogismo*-- tem uma premissa maior, uma menor e uma conclusão inferida (por dedução) de ambas.

Embora seja válido --uma vez que, se as premissas são verdadeiras, a conclusão é necessariamente verdadeira--, esse argumento contém uma premissa, a menor, falsa.

Sócrates não é um macaco.

Trata-se pois de um argumento válido, porém fraco, não "sólido".

Esse simples exemplo deveria nos ensinar que é possível deduzir proposições verdadeiras de proposições falsas, verdades de falsidades, de erros ou mentiras.

A lógica formal não tem portanto nada que ver com o valor de verdade das proposições dos argumentos, ou seja, com seu conteúdo, sua "matéria".

Ora, as teorias em geral, inclusive as científicas, são conjuntos mais ou menos sistemáticos de argumentos.

São por assim dizer grandes argumentos compostos de muitos argumentos menores.

Com base no que acabamos de ver, não é impossível que uma teoria científica se baseie em premissas falsas.

A parte experimental das ciências consiste justamente num processo dedutivo, pelo qual se busca mostrar que o resultado de um experimento reprodutível é efetivamente um caso particular da hipótese geral levantada inicialmente.

Mas a hipótese é levantada por meio de indução, e sabemos que uma das características distintivas da indução consiste no fato de esse tipo de raciocínio não poder garantir a verdade (V) da sua conclusão.

Assim, a primeira lição de lógica se nos revelou também como a primeira lição de epistemologia.

Ela nos ensina que as teorias em geral e as teorias científicas em particular padecem de uma insuficiência básica insuperável, tanto lógica quanto empiricamente.

(Outros ensinamentos se podem ainda tirar dessa lição; por exemplo, que, como todo argumento, as teorias não são nem verdadeiras nem falsas.)

Esse ensinamento elementar, no entanto, parece não ter sido devidamente aprendido por muitos cientistas, que dirá por leigos.

PS1: Ainda se encontram nos sebos manuais de Lógica Material, que, partindo de Aristóteles, pretendiam ensinar como se descobre a verdade. Hoje o conteúdo desses manuais integra o que se passou a conhecer como Metodologia Científica.

PS2: Embora elementar, esse é um textículo de filosofia, e em filosofia tudo é discutível. Assim, os hegelianos dirão que é claro que existe uma lógica material, afinal a própria realidade tem uma estrutura lógica. Os peircianos dirão que hipóteses são formuladas por abdução e não por indução. Os popperianos, que não existe indução, ou, quando muito, que se trata de uma questão de fato, do domínio da psicologia. E, não por último, os anarquistas seguidores de Feyerabend, que nem sequer existe método científico... Mas estas e outras objeções também são, por sua vez, discutíveis!

PS3: Agradeço antecipadamente por correções e sugestões!

*Agradeço ao prof. Cassiano T. Rodrigues pelo esclarecimento.

09/01/2022

Uma paixão inútil

É comum se dizer que, para Platão, a filosofia começa com a admiração. Mas raramente se diz que, para ele, a admiração é uma paixão:
"é muito do filósofo essa paixão (páthos), o admirar-se (thaumázein), pois não há outro princípio (arché) da filosofia a não ser esse." (Platão, Teeteto, 155d)

31/12/2021

Coragem!

“Kindness, kindness, kindness.
I want to make a New year's prayer, not a resolution.
I'm praying for courage.” (Susan Sontag)

30/12/2021

Negacionismo?

Não há "negacionismo" no filme "Não olhe para cima". O que há é cálculo político.

A presidenta aprova uma primeira missão, que é abortada. E por fim comanda outra missão, patrocinada pelo "emprresário evolucionário" multibilionário, que fracassa.

Ambas as missões são projetadas e conduzidas por cientistas.

Isso não é negacionismo!

Mesmo porque não existe ciência autônoma, sem interferência política e, portanto, também econômica.

Mas parece que ainda há quem conceba a ciência como Aristóteles, ou Descartes.

A ciência não tem nada a dizer sobre o que devemos ou não fazer, seja contra cometas, seja contra pandemias.

Ela resolve problemas, indicando e, quando possível, fornecendo os melhores meios: mísseis, vacinas etc.

De si mesma, a ciência não é humanista, ecológica, nem sequer ética.

Ela responde a perguntas, e atende a solicitações. A pergunta deve ser clara, bem como as condições.

Como desviar um cometa a partir do território dos EUA e dentro deste prazo? Como debelar a pandemia, com o mínimo de mortes, de internações, e sem derrubar o PIB? E: sem ferir princípios éticos, respeitando tais e tais valores etc.

Ou: como eliminar os judeus, os negros, os ciganos, os gays, os deficientes etc., de forma rápida, secreta, sem muito custo etc., e usando o processo de extermínio também como laboratório de pesquisa para o aprimoramento da raça etc.?

Colocados os fins e as condições, paga-se a conta.

É isso.

Os Atilas e as Pasternaks que me desculpem, mas estão precisando é de uma dose de realismo.

29/12/2021

OLHE PRA CIMA


E pra baixo, pros lados, 360º.

Mas antes olhe pra dentro.

Não olhe para cima

Já é um fenômeno. E pra todos os gostos.

Tem quem o considere genial, um mero caça-níqueis, um caça-níqueis genial etc.

Tá valendo. "Pão ou pães..."

O que não dá, é comparar uma superprodução de fim de ano da NETFLIX com filmes de autor, de arte, reflexivos etc., como, p. ex., Melancolia, de Lars von Trier -- afinal, neste também há uma colisão astronômica.

Filmes, como tudo o mais, devem ser avaliados de acordo com a categoria a que pertencem.

Na sua categoria, "Não olhe..." é um filme acima da média.

Mas não é, em hipótese nenhuma, um filme "filosófico", muito menos uma peça brechtiana.

E também não tem nada que ver com "negacionismo" da ciência etc.

Mas isso já é outra história.

22/12/2021

Sofistas

“Não há ninguém que tenha prestado pior serviço à raça humana do que aqueles que aprenderam filosofia como mercenários.” (Sêneca)

17/12/2021

250 + 1 anos

Hoje é aniversário do maior músico de todos os tempos.

Dizem que Bach é o Pai da música.

Nesse caso, Mozart é o Espírito Santo.

E BEETHOVEN, o Filho.

15/12/2021

Gramática profunda

Nietzsche diz, com outras palavras, que, enquanto acreditarmos na gramática, ainda acreditaremos em Deus. Como, para Nietzsche, Deus é um ente transcendente, um ideal ou "ídolo", logicamente ele pensava o mesmo da gramática (e da lógica etc.).

Por trás dessa concepção de gramática (e de lógica etc.), encontra-se a visão nietzschiana segundo a qual não existem fatos não interpretados: conhecer é interpretar de acordo com um esquema que se nos impõe naturalmente. Esse esquema é dado por nossa própria situação cognitiva, da qual não podemos escapar e na qual, necessariamente, atribuímos predicados a um sujeito (S é P).

Não surpreende, portanto, que reencontremos o esquema (S é P) na forma básica da gramática, que, por isso mesmo, nos fornece informações confiáveis ​​sobre a nossa real situação cognitiva: por um lado, o objeto de uma descrição observacional pode ser considerado como um fato; por outro, as propriedades a ele atribuídas dependem da capacidade cognitiva e dos interesses do observador, o qual, por meio de sua descrição, faz do sujeito lógico-gramatical seu objeto (subject).

Isso é assim tanto para o senso comum como para a ciência, e é justo que o seja. Com efeito, todo juízo (S é P) honesto é ao mesmo tempo subjetivo e --desde que seus termos e relações sejam usados no sentido da comunidade de falantes (de Nietzsche a Wittgenstein)-- "objetivo", ou seja, intersubjetivamente válido.

A gramática reflete, pois, a situação cognitiva vital do sujeito. Suas formas são a representação, ou melhor, a apresentação simbólica de operações mentais, razão pela qual a gramática não é nem inata (contra Chomsky) nem precisa ser aprendida. Ela surge naturalmente no processo de maturação cognitiva da criança e só precisa ser praticada à mão de exemplos (de Wittgenstein a Piaget).