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09/02/2022

O Paradoxo da Tolerância

Sir Karl Popper (1902-1994)

"[A] tolerância ilimitada pode levar ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada até àqueles que são intolerantes; se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra os o paradoxo da tolerância: a tolerância ilimitada pode levar ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada até àqueles que são intolerantes; se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra os ataques dos intolerantes, o resultado será a destruição dos tolerantes e, com eles, da tolerância. — Nesta formulação, não quero implicar, por exemplo, que devamos sempre suprimir a manifestação de filosofias intolerantes; enquanto pudermos contrapor a elas a argumentação racional e mantê-las controladas pela opinião pública, a supressão seria por certo pouquíssimo sábia. Mas deveríamos proclamar o direito de suprimi-las, se necessário mesmo pela força, pois bem pode suceder que não estejam “preparadas para se opor a nós no terreno dos argumentos racionais e sim que, ao contrário, comecem por denunciar qualquer argumentação; assim, podem proibir a seus adeptos, por exemplo, que deem ouvidos aos argumentos racionais por serem enganosos, ensinando-os a responder aos argumentos por meio de punhos e pistolas. Deveremos então reclamar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar os intolerantes. Deveremos exigir que todo movimento que pregue a intolerância fique à margem da lei e que se considere criminosa qualquer incitação à intolerância e à perseguição, do mesmo modo que no caso da incitação ao homicídio, ao sequestro de crianças ou à revivescência do tráfego de escravos.ataques dos intolerantes, o resultado será a destruição dos tolerantes e, com eles, da tolerância. — Nesta formulação, não quero implicar, por exemplo, que devamos sempre suprimir a manifestação de filosofias intolerantes; enquanto pudermos contrapor a elas a argumentação racional e mantê-las controladas pela opinião pública, a supressão seria por certo pouquíssimo sábia. Mas deveríamos proclamar o direito de suprimi-las, se necessário mesmo pela força, pois bem pode suceder que não estejam preparadas para se opor a nós no terreno dos argumentos racionais e sim que, ao contrário, comecem por denunciar qualquer argumentação; assim, podem proibir a seus adeptos, por exemplo, que deem ouvidos aos argumentos racionais por serem enganosos, ensinando-os a responder aos argumentos por meio de punhos e pistolas. Deveremos então reclamar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar os intolerantes. Deveremos exigir que todo movimento que pregue a intolerância fique à margem da lei e que se considere criminosa qualquer incitação à intolerância e à perseguição, do mesmo modo que no caso da incitação ao homicídio, ao sequestro de crianças ou à revivescência do tráfego de escravos." (Karl Popper, A sociedade aberta e seus inimigos, S. Paulo, Itatiaia, t. 1, p. 289-90)

18/05/2020

FILOSOFIA TRADUZIDA


Caros amigos e amigas da sabedoria!

O mercado de livros de filosofia em português brasileiro melhorou muito nos últimos anos, tanto em quantidade como em qualidade. Mas ainda há muitas obras importantes que não foram traduzidas ou que já se esgotaram faz tempo.

Obras que, inclusive, já caíram em domínio público, como as destes pensadores e pensadoras: Jakob F. Fries (1773-1843), Ernst F. Apelt (1812-1859) Rudolf Steiner (1861-1925), Miguel de Unamuno (1864-1936), M. Garcia Morente (1886-1942), Simone Weil (1909-1943), Joseph Marèchal (1878-1944), Alfred N. Whitehead (1861-1947) e Nicolai Berdiaev (1874-1948).

Sou professor de filosofia, em cursos de graduação, pós-graduação e em cursos livres, há mais de 12 anos. Já traduzi e revisei obras de ou sobre Edith Stein, Wilhelm Weischedel, Alessandro Ghisalberti, Vittorio Hösle, Joseph Ratzinger, Raimon Panikkar, Kurt Flasch dentre muitos outros.

O projeto Filosofia Traduzida pretende oferecer ao público leitor brasileiro, em tradução livre - evitando ao máximo os tecnicismos, mas respeitando o sentido original -, alguns textos seminais da história da filosofia moderna e contemporânea.

Para começar, alguns dos trabalhos de Leonar Nelson (1882-1925), Max Scheler (1874-1928), Edith Stein (1891-1942) e Ernst Cassirer (1874-1945). Todos de introdução à filosofia (essência, método etc.) e sobre a relação da filosofia com a cultura em geral (mito, religião, arte, política, ciência etc.).

Esses textos serão traduzidos e publicados em formato digital (Epub, PDF etc.), até o fim de 2020, pelo selo Methexis-20. Serão vendidos nas principais livrarias virtuais e plataformas de marketplace a preços módicos, mas superiores às contribuições feitas por meio da kickante. Estão previstos 4 e-books por ano.

Os amigos que contribuírem para a Filosofia Traduzida receberão as traduções, em primeira mão, à medida que forem concluídas.

Esta foi a maneira que encontrei para sobreviver a estes meses de confinamento e desemprego, e, ao mesmo tempo, de colaborar de modo relevante com a sociedade brasileira nestes tempos obscuros, de desorientação e incerteza.

Contribua, doando o que puder (os valores mínimos estão indicados ao lado, como Recompensas) para o projeto Filosofia Traduzida e divulgue-o nas suas redes sociais e entre os seus contatos.

Conto com o seu apoio!

Muito obrigado e até logo,

Edson D. Gil


Methexis-20

Compartilhando conteúdo relevante em tempos de pandemia

17/04/2018

Eleições vs. Democracia

David van Reybrouck, historiador belga, e James Fishkin, professor americano, propõem democracia deliberativa e seleção randômica de parlamentares.

A reportagem é de Ronaldo Bressane, jornalista e escritor, publicada por O Estado de S. Paulo em 15-4-2018.*

Somente 33% dos europeus confiam na UE. Nas eleições de meio de mandato nos EUA, não compareceram 60% dos eleitores. No Brasil, a abstenção em 2014 ficou em 25%, e, nas pesquisas para 2018, votos brancos e nulos estão em torno de 20%.

“A culpa é dos políticos” é o diagnóstico do populismo – e o remédio é uma representação popular. “A culpa é da democracia” é o diagnóstico da tecnocracia – e temos soluções como em Cingapura, país linha-dura governado há décadas por um presidente-CEO. “A culpa é da democracia representativa”, afirmam defensores da democracia direta.

Para Reybrouck “a culpa é da democracia representativa eleitoral”. Distingue “eleições” de “democracia” e remete-nos aos primórdios. Além de a Grécia ter escravos e restringir o voto aos homens, as funções da república eram sorteadas para um período de um ano, sem reeleição, para evitar a corrupção. Os cidadãos se revezavam nas funções em todos os níveis. Nas financeiras e militares, eram escolhidos os mais competentes. Para Aristóteles, a democracia passa pela ideia de sorteio: "democracia representativa aleatória”.

As eleições foram criadas no século 18 para que a elite não perdesse o poder. “A Revolução Francesa, como a Norte-americana, não eliminou a aristocracia para instalar uma democracia, mas eliminou uma aristocracia hereditária para instalar uma aristocracia eleita.” Contra o que chama de “patogênese do nosso fundamentalismo eleitoral”, Reybrouck propõe a democracia deliberativa – já defendida pelo filósofo alemão Jürgen Habermas.

O maio defensor desse conceito e criador de instrumentos para implementá-lo é James Fishkin, professor de ciências sociais da Universidade de Stanford, que propõe uma democracia em que os cidadãos não apenas votam nos políticos, mas discutem com eles e com os especialistas.

* Leia a reportagem (que resumo acima), seguida de entrevista concedida por Fishkin, aqui ou aqui.