(E de Epistemologia)
Todo macaco é mortal
Ora, Sócrates é um macaco
Logo, Sócrates é mortal
O argumento acima --que estritamente falando não é um silogismo*-- tem uma premissa maior, uma menor e uma conclusão inferida (por dedução) de ambas.
Embora seja válido --uma vez que, se as premissas são verdadeiras, a conclusão é necessariamente verdadeira--, esse argumento contém uma premissa, a menor, falsa.
Sócrates não é um macaco.
Trata-se pois de um argumento válido, porém fraco, não "sólido".
Esse simples exemplo deveria nos ensinar que é possível deduzir proposições verdadeiras de proposições falsas, verdades de falsidades, de erros ou mentiras.
A lógica formal não tem portanto nada que ver com o valor de verdade das proposições dos argumentos, ou seja, com seu conteúdo, sua "matéria".
Ora, as teorias em geral, inclusive as científicas, são conjuntos mais ou menos sistemáticos de argumentos.
São por assim dizer grandes argumentos compostos de muitos argumentos menores.
Com base no que acabamos de ver, não é impossível que uma teoria científica se baseie em premissas falsas.
A parte experimental das ciências consiste justamente num processo dedutivo, pelo qual se busca mostrar que o resultado de um experimento reprodutível é efetivamente um caso particular da hipótese geral levantada inicialmente.
Mas a hipótese é levantada por meio de indução, e sabemos que uma das características distintivas da indução consiste no fato de esse tipo de raciocínio não poder garantir a verdade (V) da sua conclusão.
Assim, a primeira lição de lógica se nos revelou também como a primeira lição de epistemologia.
Ela nos ensina que as teorias em geral e as teorias científicas em particular padecem de uma insuficiência básica insuperável, tanto lógica quanto empiricamente.
(Outros ensinamentos se podem ainda tirar dessa lição; por exemplo, que, como todo argumento, as teorias não são nem verdadeiras nem falsas.)
Esse ensinamento elementar, no entanto, parece não ter sido devidamente aprendido por muitos cientistas, que dirá por leigos.
PS1: Ainda se encontram nos sebos manuais de Lógica Material, que, partindo de Aristóteles, pretendiam ensinar como se descobre a verdade. Hoje o conteúdo desses manuais integra o que se passou a conhecer como Metodologia Científica.
PS2: Embora elementar, esse é um textículo de filosofia, e em filosofia tudo é discutível. Assim, os hegelianos dirão que é claro que existe uma lógica material, afinal a própria realidade tem uma estrutura lógica. Os peircianos dirão que hipóteses são formuladas por abdução e não por indução. Os popperianos, que não existe indução, ou, quando muito, que se trata de uma questão de fato, do domínio da psicologia. E, não por último, os anarquistas seguidores de Feyerabend, que nem sequer existe método científico... Mas estas e outras objeções também são, por sua vez, discutíveis!
PS3: Agradeço antecipadamente por correções e sugestões!
*Agradeço ao prof. Cassiano T. Rodrigues pelo esclarecimento.
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