Ou a confusão paraláctica do professor Carvalho
Estava eu procurando uns vídeos de introdução a Kant e me deparei com este, do jornalista, professor e filósofo (sou como o IBGE, se alguém me disser que é branco e hétero, eu acredito) Olavo de Carvalho, que aliás acaba de morrer mais uma vez esta semana.
Vi apenas os 2 primeiros minutos, que não sou de ferro. Mas foi o bastante para constatar que o professor Carvalho não entendeu o básico do idealismo transcendental.
Não deixa de ser curioso, pois ele diz que leu Eric Weil, Zubiri, Lonergan, filósofos que estudaram Kant e tinham uma boa compreensão de seu pensamento.
Para resumir, Carvalho incorre no mesmo erro que atribui a Kant: ele esquece de si mesmo.
Quando diz que o sujeito empírico --que ele não distingue do transcendental-- não só recebe as emissões do mundo de acordo com suas estruturas a priori, mas, como parte do mundo, também projeta emissões a priori, Carvalho se esquece que só pode saber disso como... sujeito!
E que, como sujeito, saberia desse suposto a priori objetivo segundo as formas e categorias... subjetivas!
O exemplo que o professor dá é nada menos que tosco, mas vou aproveitá-lo para fazer uma reflexão que, ainda que mínima, talvez possa esclarecer esse ponto.
Assumindo que o sujeito do exemplo, que se vê no espelho, seja uma espécie de sujeito "concreto", empírico-transcendental, pergunta-se: o que distingue o sujeito vidente do sujeito visto?
Sim, obviamente, que o sujeito visto é apenas uma imagem refletida, um reflexo, do sujeito vidente.
Mas qual é a diferença fundamental entre um e outro, entre o sujeito concreto e o refletido?
A diferença, que o professor, por ter partido de uma posição ingênua, acrítica, não pode perceber é que o segundo, o sujeito-imagem, não... vê!
Não vê, nem, muito menos, enxerga nada, pois não passa de um objeto entre muitos outros.
O que quer que esse "sujeito objetal" emita ou deixe de emitir sempre será percebido por um sujeito qualquer como... objeto!
Emissões objetivas a priori não passam de fantasmagorias, ou, para falar com Kant, de ilusões transcendentais.
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