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18/05/2020

PARRÉSIA

Pandemia ressalta importância de dizer a verdade, diz Nobel de Medicina
Margarita Rodríguez
Da BBC News Mundo
17 maio 2020


Peter Ratcliffe na cerimônia do Prêmio Nobel em 10 de dezembro de 2019
Peter Ratcliffe, Nobel de Medicina (2019)


"Um dos principais aspectos desta pandemia é a importância de se dizer a verdade. Ficará claro quem fez isso ou não, à medida que as pesquisas avançam. Não tenho simpatia pelas pessoas que continuam escondendo os fatos. Acho que o público pode lidar com más notícias e algum nível de incerteza.

"Acho que existem diferentes tipos de problemas em muitos países no momento, em relação à forma como os líderes reagiram à epidemia. Acho que, se há uma lição, seria contar toda a verdade e nada além da verdade."

Leia a matéria AQUI

16/04/2018

Justiça vs. Igualdade

Embora a condição socioeconômica da humanidade venha melhorando nas últimas décadas, sobretudo a partir da 2ª Guerra Mundial, o mundo globalizado é cada vez mais desigual. É o que se poderia chamar de "paradoxo do capitalismo".

Com efeito, ao mesmo tempo que gera muita riqueza, o capitalismo tende a concentrá-la cada vez mais nas mãos de cada vez menos empresas e pessoas. O capitalismo baseia-se no acúmulo e não na distribuição de riqueza.
Assim, se o total da riqueza de uma população de 100 habitantes é de 100 dinheiros, cada habitante poderia dispor igualmente de 1 dinheiro. Mas se a riqueza dessa mesma população triplicasse, 90 habitantes poderiam dispor, por exemplo, de 2 dinheiros cada, e o restante, 120 dinheiros, ficar nas mãos de 10 habitantes, cabendo a cada um 12 dinheiros. Desse modo, a riqueza de 90% da população seria dobrada, enquanto a dos outros 10% seria multiplicada por 12, tendo, portanto, um crescimento 6 vezes maior.

O capitalismo, além disso, é um sistema estruturalmente instável. Não tem um desenvolvimento linear, mas vive de crises cíclicas. E nessas crises produzidas pelo próprio sistema (superprodução, inflação, bolhas etc.), ocorre uma redução da renda média da população (desemprego, subemprego, precarização do trabalho etc.).

Esse achatamento, porém, não atinge a todos igualmente. No exemplo acima, ele afetaria pouco mais do que os 90% mais pobres.

A desigualdade (crescente) é, por conseguinte, um grande problema do capitalismo. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo: 10% da população concentram 43,3% da renda do país. Mas mesmo países desenvolvidos como os EUA também são relativamente desiguais. Em 2016, quase 41 milhões de estadunidenses, ou 13% da população, viviam na pobreza.

Não obstante, parece-me que o maior problema não é a desigualdade e sim a iniquidade. Não se trata, pois, de uma questão meramente quantitativa, mas sim de uma questão qualitativa.

É claro que a igualdade de oportunidades já representaria um grande avanço. Mas com isso não se resolveriam todos os problemas.

Em primeiro lugar, seria necessário garantir igualdade de condições INICIAIS, o que já representa muito mais do que a igualdade abstrata de oportunidade. Em seguida, seria necessário flexibilizar a igualdade no sentido da equidade: tomando de cada um segundo a sua capacidade e devolvendo a cada um segundo a sua necessidade*.

A equidade é desigual, ou seja, a igualdade não é necessariamente justa.

A pergunta de um milhão de dólares é se o capitalismo poderia ser reformado para tornar-se um sistema equitativo, justo.

A minha resposta, de um centavo, é: não.

* Essa proposta foi apresentada por Karl Marx, em termos semelhantes, na sua Critica ao Programa de Gotha (1875). É equivocada, pois, a ideia de que o comunismo marxiano defende a igualdade pura e simples.