Nietzsche diz, com outras palavras, que, enquanto acreditarmos na gramática, ainda acreditaremos em Deus. Como, para Nietzsche, Deus é um ente transcendente, um ideal ou "ídolo", logicamente ele pensava o mesmo da gramática (e da lógica etc.).
Por trás dessa concepção de gramática (e de lógica etc.), encontra-se a visão nietzschiana segundo a qual não existem fatos não interpretados: conhecer é interpretar de acordo com um esquema que se nos impõe naturalmente. Esse esquema é dado por nossa própria situação cognitiva, da qual não podemos escapar e na qual, necessariamente, atribuímos predicados a um sujeito (S é P).
Não surpreende, portanto, que reencontremos o esquema (S é P) na forma básica da gramática, que, por isso mesmo, nos fornece informações confiáveis sobre a nossa real situação cognitiva: por um lado, o objeto de uma descrição observacional pode ser considerado como um fato; por outro, as propriedades a ele atribuídas dependem da capacidade cognitiva e dos interesses do observador, o qual, por meio de sua descrição, faz do sujeito lógico-gramatical seu objeto (subject).
Isso é assim tanto para o senso comum como para a ciência, e é justo que o seja. Com efeito, todo juízo (S é P) honesto é ao mesmo tempo subjetivo e --desde que seus termos e relações sejam usados no sentido da comunidade de falantes (de Nietzsche a Wittgenstein)-- "objetivo", ou seja, intersubjetivamente válido.
A gramática reflete, pois, a situação cognitiva vital do sujeito. Suas formas são a representação, ou melhor, a apresentação simbólica de operações mentais, razão pela qual a gramática não é nem inata (contra Chomsky) nem precisa ser aprendida. Ela surge naturalmente no processo de maturação cognitiva da criança e só precisa ser praticada à mão de exemplos (de Wittgenstein a Piaget).
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