15/12/2021

Gramática profunda

Nietzsche diz, com outras palavras, que, enquanto acreditarmos na gramática, ainda acreditaremos em Deus. Como, para Nietzsche, Deus é um ente transcendente, um ideal ou "ídolo", logicamente ele pensava o mesmo da gramática (e da lógica etc.).

Por trás dessa concepção de gramática (e de lógica etc.), encontra-se a visão nietzschiana segundo a qual não existem fatos não interpretados: conhecer é interpretar de acordo com um esquema que se nos impõe naturalmente. Esse esquema é dado por nossa própria situação cognitiva, da qual não podemos escapar e na qual, necessariamente, atribuímos predicados a um sujeito (S é P).

Não surpreende, portanto, que reencontremos o esquema (S é P) na forma básica da gramática, que, por isso mesmo, nos fornece informações confiáveis ​​sobre a nossa real situação cognitiva: por um lado, o objeto de uma descrição observacional pode ser considerado como um fato; por outro, as propriedades a ele atribuídas dependem da capacidade cognitiva e dos interesses do observador, o qual, por meio de sua descrição, faz do sujeito lógico-gramatical seu objeto (subject).

Isso é assim tanto para o senso comum como para a ciência, e é justo que o seja. Com efeito, todo juízo (S é P) honesto é ao mesmo tempo subjetivo e --desde que seus termos e relações sejam usados no sentido da comunidade de falantes (de Nietzsche a Wittgenstein)-- "objetivo", ou seja, intersubjetivamente válido.

A gramática reflete, pois, a situação cognitiva vital do sujeito. Suas formas são a representação, ou melhor, a apresentação simbólica de operações mentais, razão pela qual a gramática não é nem inata (contra Chomsky) nem precisa ser aprendida. Ela surge naturalmente no processo de maturação cognitiva da criança e só precisa ser praticada à mão de exemplos (de Wittgenstein a Piaget).

O problema do problema

Os filósofos ocupam-se dos chamados "problemas filosóficos". Significa isso que eles filosofam "a partir dos" problemas?

Não, não significa, pois os "problemas filosóficos" não são dados, muito menos pré-dados. Na verdade, os filósofos formulam os seus problemas "a partir de" pressupostos eles mesmos não problematizados. Os "problemas filosóficos", portanto, não surgem da problematização, mas da assunção mais ou menos acrítica de pressupostos.

Dizemos que há um problema quando nos deparamos com uma diferença entre um estado de coisas presente, real, e outro, futuro, ideal. Trata-se, portanto, de uma diferença que, por ser de algum modo incômoda, desperta o nosso interesse e requer a nossa atenção. Consideramos pois necessária a superação dessa diferença. A rigor só se pode falar propriamente de problema quando a diferença é verbalizada numa pergunta (ou formulada numa equação).

Os problemas filosóficos são perguntas formuladas por pensadores a partir de diferenças que lhes despertaram o interesse teórico e/ou existencial. As perguntas mais básicas que fazem dão origem a disciplinas filosóficas, e as respostas a essas perguntas, a escolas ou correntes filosóficas. Assim, as perguntas formuladas a partir da diferença entre (o) ser e (o) nada (p. ex., "por que existe algo ao invés de nada?") estão na origem da metafísica, e as formuladas a partir da diferença entre sujeito e objeto (p. ex., "é possível o conhecimento objetivo?") deram surgimento à teoria do conhecimento.

Os filósofos formulam seus problemas a partir de diferenças ou dicotomias que lhes parecem dadas (ou pré-dadas), as quais então tomam como premissas de seus argumentos, ou seja, como pressupostos de sua teoria. Naturalmente, os filósofos esforçam-se para refletir sobre o ponto de partida próprio e o alheio --sobretudo o alheio. Alguns creem não só identificar, como até justificar racionalmente os próprios pressupostos. É o caso, p. ex., de Jaspers e a "cisão" sujeito-objeto.

Outros chegam mesmo a rejeitar não apenas correntes ou escolas como toda uma disciplina filosófica. É o caso de Heidegger, p. ex., que rechaça a teoria do conhecimento justamente por não aceitar como pressuposto a dicotomia sujeito-objeto. No entanto, ele mantém outras dicotomias, tais como a de ser e não-ser (nada, ente), ser e tempo, ser e sentido etc.

Em suma, não há problema sem diferença; não há problema filosófico sem a assunção mais ou menos crítica --ou seja, mais ou menos ingênua ou dogmática-- de uma dicotomia básica.

12/12/2021

Os filósofos

Ocupam-se dos chamados "problemas filosóficos".

Significa isso que eles filosofam "a partir dos" problemas?

Não, não significa, pois os "problemas filosóficos" não são dados, muito menos pré-dados.

Na verdade, os filósofos formulam os seus problemas "a partir de" pressupostos eles mesmos não problematizados.

Os "problemas filosóficos", portanto, não surgem da problematização, mas da assunção acrítica de pressupostos.

05/12/2021

Breve história da filosofia

Acreditamos em tudo, de B a Z, porque acreditamos em A, e acreditamos em A porque acreditamos em tudo, de B a Z.

Se A não é verdade, então tudo, de B a Z, também deve ser falso.

Logo, se não estivermos dispostos a desistir da nossa crença em tudo, de B a Z, naturalmente nos apegaremos firmemente à nossa crença em A.

E, assim, A nos parecerá a melhor explicação para tudo, de B a Z.

03/06/2020

Gerador de Bandeira Antifascista


Não sou lá muito fã de bandeiras, mas tá valendo:


https://www.facebook.com/874268119298220/photos/3165992316792444/

18/05/2020

FILOSOFIA TRADUZIDA


Caros amigos e amigas da sabedoria!

O mercado de livros de filosofia em português brasileiro melhorou muito nos últimos anos, tanto em quantidade como em qualidade. Mas ainda há muitas obras importantes que não foram traduzidas ou que já se esgotaram faz tempo.

Obras que, inclusive, já caíram em domínio público, como as destes pensadores e pensadoras: Jakob F. Fries (1773-1843), Ernst F. Apelt (1812-1859) Rudolf Steiner (1861-1925), Miguel de Unamuno (1864-1936), M. Garcia Morente (1886-1942), Simone Weil (1909-1943), Joseph Marèchal (1878-1944), Alfred N. Whitehead (1861-1947) e Nicolai Berdiaev (1874-1948).

Sou professor de filosofia, em cursos de graduação, pós-graduação e em cursos livres, há mais de 12 anos. Já traduzi e revisei obras de ou sobre Edith Stein, Wilhelm Weischedel, Alessandro Ghisalberti, Vittorio Hösle, Joseph Ratzinger, Raimon Panikkar, Kurt Flasch dentre muitos outros.

O projeto Filosofia Traduzida pretende oferecer ao público leitor brasileiro, em tradução livre - evitando ao máximo os tecnicismos, mas respeitando o sentido original -, alguns textos seminais da história da filosofia moderna e contemporânea.

Para começar, alguns dos trabalhos de Leonar Nelson (1882-1925), Max Scheler (1874-1928), Edith Stein (1891-1942) e Ernst Cassirer (1874-1945). Todos de introdução à filosofia (essência, método etc.) e sobre a relação da filosofia com a cultura em geral (mito, religião, arte, política, ciência etc.).

Esses textos serão traduzidos e publicados em formato digital (Epub, PDF etc.), até o fim de 2020, pelo selo Methexis-20. Serão vendidos nas principais livrarias virtuais e plataformas de marketplace a preços módicos, mas superiores às contribuições feitas por meio da kickante. Estão previstos 4 e-books por ano.

Os amigos que contribuírem para a Filosofia Traduzida receberão as traduções, em primeira mão, à medida que forem concluídas.

Esta foi a maneira que encontrei para sobreviver a estes meses de confinamento e desemprego, e, ao mesmo tempo, de colaborar de modo relevante com a sociedade brasileira nestes tempos obscuros, de desorientação e incerteza.

Contribua, doando o que puder (os valores mínimos estão indicados ao lado, como Recompensas) para o projeto Filosofia Traduzida e divulgue-o nas suas redes sociais e entre os seus contatos.

Conto com o seu apoio!

Muito obrigado e até logo,

Edson D. Gil


Methexis-20

Compartilhando conteúdo relevante em tempos de pandemia

PARRÉSIA

Pandemia ressalta importância de dizer a verdade, diz Nobel de Medicina
Margarita Rodríguez
Da BBC News Mundo
17 maio 2020


Peter Ratcliffe na cerimônia do Prêmio Nobel em 10 de dezembro de 2019
Peter Ratcliffe, Nobel de Medicina (2019)


"Um dos principais aspectos desta pandemia é a importância de se dizer a verdade. Ficará claro quem fez isso ou não, à medida que as pesquisas avançam. Não tenho simpatia pelas pessoas que continuam escondendo os fatos. Acho que o público pode lidar com más notícias e algum nível de incerteza.

"Acho que existem diferentes tipos de problemas em muitos países no momento, em relação à forma como os líderes reagiram à epidemia. Acho que, se há uma lição, seria contar toda a verdade e nada além da verdade."

Leia a matéria AQUI

16/05/2020

Vem, noite antiquíssima e idêntica

FERNANDO PESSOA

...
Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé antepé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil.
...


Literatura-Vivência: Iberê Camargo, sua "trivia" e seus processos
Iberê Camargo

14/05/2020

RECOMEÇO

A partir de amanhã, 15-5-20, este blog será a casa do projeto-mãe Methexis-20, o qual abrigará outros projetos-filho, como o Filosofia Traduzida.