15/12/2021

O problema do problema

Os filósofos ocupam-se dos chamados "problemas filosóficos". Significa isso que eles filosofam "a partir dos" problemas?

Não, não significa, pois os "problemas filosóficos" não são dados, muito menos pré-dados. Na verdade, os filósofos formulam os seus problemas "a partir de" pressupostos eles mesmos não problematizados. Os "problemas filosóficos", portanto, não surgem da problematização, mas da assunção mais ou menos acrítica de pressupostos.

Dizemos que há um problema quando nos deparamos com uma diferença entre um estado de coisas presente, real, e outro, futuro, ideal. Trata-se, portanto, de uma diferença que, por ser de algum modo incômoda, desperta o nosso interesse e requer a nossa atenção. Consideramos pois necessária a superação dessa diferença. A rigor só se pode falar propriamente de problema quando a diferença é verbalizada numa pergunta (ou formulada numa equação).

Os problemas filosóficos são perguntas formuladas por pensadores a partir de diferenças que lhes despertaram o interesse teórico e/ou existencial. As perguntas mais básicas que fazem dão origem a disciplinas filosóficas, e as respostas a essas perguntas, a escolas ou correntes filosóficas. Assim, as perguntas formuladas a partir da diferença entre (o) ser e (o) nada (p. ex., "por que existe algo ao invés de nada?") estão na origem da metafísica, e as formuladas a partir da diferença entre sujeito e objeto (p. ex., "é possível o conhecimento objetivo?") deram surgimento à teoria do conhecimento.

Os filósofos formulam seus problemas a partir de diferenças ou dicotomias que lhes parecem dadas (ou pré-dadas), as quais então tomam como premissas de seus argumentos, ou seja, como pressupostos de sua teoria. Naturalmente, os filósofos esforçam-se para refletir sobre o ponto de partida próprio e o alheio --sobretudo o alheio. Alguns creem não só identificar, como até justificar racionalmente os próprios pressupostos. É o caso, p. ex., de Jaspers e a "cisão" sujeito-objeto.

Outros chegam mesmo a rejeitar não apenas correntes ou escolas como toda uma disciplina filosófica. É o caso de Heidegger, p. ex., que rechaça a teoria do conhecimento justamente por não aceitar como pressuposto a dicotomia sujeito-objeto. No entanto, ele mantém outras dicotomias, tais como a de ser e não-ser (nada, ente), ser e tempo, ser e sentido etc.

Em suma, não há problema sem diferença; não há problema filosófico sem a assunção mais ou menos crítica --ou seja, mais ou menos ingênua ou dogmática-- de uma dicotomia básica.

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