O fato é que se houve um golpe (de Estado, parlamentar, jurídico-midiático etc.), tratou-se de um golpe sui generis, uma vez que transcorreu de modo “democrático”: foi conduzido por parlamentares eleitos pelo povo, seguindo os ritos legais, com supervisão do judiciário, sem violência nem cassação de direitos de nenhuma espécie. Nota bene: a própria Dilma não perdeu os direitos políticos.
Apesar da intensa propaganda e de toda paixão com que é defendida pela militância político-partidária, sobretudo petista, a tese do golpe não se sustenta. Para desmontá-la, além de a confrontar com os fatos, basta formular algumas perguntas simples: se contasse com o apoio de 1/3 do Congresso Nacional, a presidenta teria caído?; e se ela não tivesse cometido estelionato eleitoral?; se a economia estivesse crescendo, ainda que minimamente?; se o presidente fosse o Lula ou outro minimamente "popular"?; ou se o vice-presidente, escolhido por Lula e pelo PT, não fosse um traidor profissional?
E mais: se não tivesse sido “impichada”, a Dilma conseguiria governar?; ela já não havia perdido completamente o comando?; como se pode sustentar um governo com medidas populistas, meramente paliativas, casuísticas, de curtíssimo prazo, e às custas do caixa de estatais? Etc.
Na verdade, o que se tem chamado de golpe não passou de um ajuste, de um reequilíbrio de forças. A Dilma venceu as eleições por uma pequena vantagem, a qual se converteu em desvantagem assim que o estelionato ficou patente para os eleitores, que se sentiram enganados.
O nosso regime político, conhecido como presidencialismo de coalizão (ou, mais precisamente, de cooptação), é uma espécie de parlamentarismo degenerado. Nesse regime híbrido, o impeachment cumpre a função "democrática" de destituir o governante inepto sem ruptura legal nem uso de violência.
Se ainda assim insistem em chamar isso de golpe, para mim tanto faz: o nome não muda a natureza da rosa.
Uma das coisas que mais chamam a atenção, entretanto, é como as esquerdas, de repente, passaram a defender com unhas e dentes a institucionalidade, em geral, e a Constituição, em particular. Da noite para o dia, boa parte da esquerda passou a venerar o chamado Estado de Direito e a tal da República.
Ora, para as esquerdas, essas instituições nunca passaram de instrumentos da luta pela conquista e manutenção do poder. Pouco antes da prisão do Lula, senadores do PT fizeram acalorados discursos contra a tal da institucionalidade. O próprio Lula, no seu discurso de despedida, louvou as invasões – só as legais? – perpetradas pelo MST. Analistas políticos "progressistas" consideram que o Lula e, sobretudo, a Dilma cometeram um pecado mortal: o do "republicanismo". Estariam eles pagando um alto preço por não terem intervindo – diretamente? – nas instituições (MP, PF etc.).
Os arroubos republicanos ad hoc de boa parte da esquerda, tanto em relação ao "golpe" quanto em relação à condenação e prisão do Lula (e, por extensão, à prisão em segunda instância etc.), revelam uma profunda incoerência. Tão profunda que está minando – ainda mais? – a própria identidade das esquerdas.
O ora incensado Estado Republicano de Direito não passa, de fato, de um instrumento de domínio. Como todo poder – dominante, explorador, opressor etc. –, pertence também ele à lógica, ou melhor, à dialética infernal do Sistema, do capitalismo global, one world, a que chamamos de civilização ocidental cristã.
As esquerdas, com raras exceções – quais mesmo? –, iludem-se se creem poder fazer parte do jogo sem se submeter à sua lógica. Mais ingênuos ainda são os militantes que ainda creem na possibilidade de uma revolução imanente, de uma transformação do capitalismo a partir de dentro dele mesmo, e com as próprias armas. Ledo engano!
Quando se trata de capitalismo, como se diz: o que cai na rede é peixe. Tudo que entra no jogo é imediatamente assimilado, transformado em mais uma peça, uma engrenagem de uma maquinaria impessoal, que apenas persegue os próprios fins – o dinheiro como materialização do valor abstrato – sem absolutamente nenhum escrúpulo.
Não é que a luta de classes, com seus preconceitos e ódios, não exista. Ao contrário! Essa "contradição" sempre existiu, mesmo antes do capitalismo. E por isso mesmo não pode constituir a sua essência.
A instrumentalização política da luta de classes e de outras "contradições" não só não leva à superação do capitalismo, como ainda o fortalece. Pois que elas são o próprio motor do Sistema, o combustível da maquinaria.
A defesa da Teoria do Golpe bem como da institucionalidade em geral e da Constituição em particular, numa palavra, a defesa da "política", redunda na defesa, no fomento do próprio capitalismo, ou seja, no retardamento do fim de um sistema econômico-social que já mostra claros sinais de exaustão (“o capital é o limite do capital”).
Não seria mais coerente, portanto, em vez de lutar politicamente pela reversão de um suposto golpe, abandonar a política, dando um golpe NA política? Lutar fora da política, fora do Sistema, com outras armas, sob outra lógica – não violenta, não dominante, opressora, exploradora etc.? Para o bem das futuras gerações e do futuro do planeta?
Nas próximas eleições, raro leitor, pense nisso, seja radical e um autêntico “golpista”!
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